quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Sobre nuvens escuras e desimportâncias

A vida é tão maravilhosa e tão cheia de personalidade, mostra pra gente o tempo inteiro que não mandamos nos acontecimentos e que é muito melhor aprender com cada um deles. Eu mesma, gosto muito mais de dias de sol e calor. Gosto da claridade. Gosto da clareza. Gosto de gente que não sabe segurar o riso, o choro, o desabafo, o impulso, gente simples, que entra e pede licença, erra e pede desculpa, aceita e agradece. Tenho preguiça de mistério, do charme, da presunção, da expectativa e do subentendido. Sempre fui assim. Por ser assim tão literal, eu já perdi mil piadas, fui alvo de algumas, caí em todas as pegadinhas. Por ser assim tão literal em um mundo nebuloso, eu às vezes entro na dança dos dias embaçados, faço pouco caso deles ou aproveito pra vestir um lenço colorido, ando sem ver o caminho, aceno sem saber pra quem, sorrio sem entender a frase, lamento pelas minhas limitações, finjo que entendi, que não doeu, que não fez falta, que não me importo, que o essencial me basta. Porque é tudo tão simples e pequeno. Aquele pedido de desculpas não dito, o agradecimento não dito, o elogio não dito, o desabafo não dito, o esclarecimento não dito e aquele mal entendido residual. Não aprecio mas relevo, porque a vida não é feita só daquilo que a gente gosta, e pra ter tantos mais dias ensolarados e quentes é um preço bem barato a pagar. Não é pra ser importante. E passa. Mas às vezes você paga e paga, seu sorriso vai perdendo a força, seu aceno tem menos energia, o lenço colorido desbota e a nuvem continua lá te deixando no escuro, com todas aquelas interrogações. Ahhh nuvem, sou tão simples e pequena, sua sombra às vezes é tão grande e sem sentido, ainda tenho tanto o que aprender...

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Sobre religião, beijos gays e menores infratores

Quem somos nós pra discriminar ou pra aceitar calados a discriminação ao próximo? Como justificar ou apoiar isso? Como compreender essa conduta vinda de gente que se diz espiritualizada? A partir do momento que a religião for usada pra expulsar uma pessoa da igreja (em vez de acolher), ela fracassa. A partir do momento em que ela se restringe ou dificulta o acesso, ela se corrompe. A partir do momento em que ela condena, ela se perde. A partir do momento em que se fala em mandar adolescentes diretamente para a cadeia (os “outros”, que não são da sua família “de bem”, “honesta” e “trabalhadora”, mas que talvez tenham nascido na pobreza e na desgraça e tenham “escolhido” partir pro crime em vez de esperar pelo Baú da Felicidade) um mandamento é quebrado. A partir do momento em que uma família apoia o desfazimento de outra em vez de procurar, ao contrário, um recurso contra isso, um alicerce se rompe. A partir do momento em que um “fiel” desliga a TV e ainda faz questão de manifestar seu ódio a uma novela por causa de um beijo romântico entre duas senhoras, são dois corações que se despedaçam dentro de dois seres humanos iguais aos outros e acabam de ser rejeitados. Não sei se todos lembram ou se importam com isso, mas Jesus Cristo foi tratado dessa maneira. Jesus foi julgado e condenado porque o amor que sentia o sujeitara à exposição, à execução vinda de pessoas que se sentiam superiores ao tempo em que matavam, torturavam e humilhavam seus semelhantes. Qualquer semelhança com o Holocausto não é mera coincidência. Nós erramos o tempo inteiro porque somos imperfeitos e só o amor que recebemos é o que nos salva apesar de tudo. O amor da mãe, do pai, do irmão, do amigo, do cachorro, do companheiro, do cônjuge (seja ele do sexo oposto ou não - e o que temos a ver com isso?) Nós ligamos a TV todos os dias e damos audiência a todo tipo de violência e injustiça, mas é um beijo homossexual que incomoda, uma manifestação de amor e carinho. Ponto pra Globo, que mandou um beijo no ombro pro preconceito. É assim que se deve combater a violência: com amor. Reprimir violência com violência tem que ser sempre a última saída, nunca a primeira, jamais uma forma de educar um indivíduo em formação. Precisamos é de escolas melhores! A sua liberdade de expressão é plena enquanto for lícita, enquanto respeitar o direito alheio, assim como a liberdade do outro não dá a nenhum indivíduo uma permissão para te ofender. Se você não é seguro com a sua sexualidade a ponto de se sentir ameaçado por manifestações públicas de afeto, talvez você precise refletir sobre onde (ou em quem) está o problema. Se você se sente ameaçado pela violência do seu país, lute por um país melhor para todos os cidadãos. Comece por você. Aceite-se, aceite o próximo, lute para ser aceito, lute contra o preconceito (desconceito ou anticonceito) seja ele quanto a orientação sexual, de classe social, de nível cultural. Só a capacidade de amar é que nos faz mais humanos, e não precisa de um elevado grau de instrução pra aprender, a prática ensina. A igreja existe porque todo ser humano precisa de redenção, não porque merece um altar. A realidade é inevitável pra todo mundo. Não tem nada mais indecente que a ignorância. 

terça-feira, 30 de setembro de 2014

tudo igual

“- 98% dos criminosos comem pão.
- 50% das crianças que crescem comendo pão apresentam baixo desempenho escolar.
- No século XVIII, quando a maior parte do pão era assado em casa, a expectativa de vida era de menos de 50 anos, a mortalidade infantil era extremamente elevada e muitas mães morriam durante o parto.
- Mais de 90% dos crimes violentos são cometidos no intervalo de 24 horas após o assassino ingerir pão.
- Sociedades primitivas, onde o pão não fazia parte da dieta, apresentavam baixos índices de câncer de pulmão, tendinite e stress.
- Recém nascidos engasgam ao comer pão.
- Estudos comprovados mostram que um ambiente com pão exposto ao ar por muitos dias apresenta um odor forte de bolor.
- Ministério da saúde adverte: pão causa pneuzinhos se você não malhar.”

A maioria do que foi escrito acima é verdade, mas não tem relação nenhuma com o consumo de pão. É assim que eu olho para estatísticas. Estatísticas são dados, um produto do que já foi feito. Estatística é história, é passado. Tendenciosas, são o mais pobre instrumento de manipulação. Eu tinha renovado a minha fé na democracia com os protestos do ano passado e nessa semana comecei a desacreditar as pesquisas, as reportagens e também muitos posts do facebook. Quando criticaram os protestos dizendo que a revolução deve ser nas urnas, discordei, porque entendi que a manifestação é livre. O mínimo que eu esperava era que a tal sede de mudança se refletisse agora. O que vejo são cidadãos praticando mais do mesmo, pautando seu voto em promessas vazias, em currículos medianos, desqualificando candidatos por critérios que reprovariam qualquer dos outros. A mesma superficialidade de sempre. Acredito que a mudança não vem com uma reeleição, tampouco com uma oposição manjada que esteve no poder há não muito tempo. É argumento pra avaliar um eventual mandato? Não, mas é vontade de mudar. No entanto, o que se vê é eleitor se negando a olhar pros novos candidatos, aqueles que poderiam efetivamente representar a mudança. A Marina Silva, uma pessoa com trajetória de vida admirável e que repentinamente, com a morte de Eduardo Campos, subiu nas ‘pesquisas’, logo sentiu sob suas costas o resultado de sua ascensão: críticas infundadas de todos os lados, pressão para adequar seus discursos à vontade da maior parte de grupos sociais, causando até mesmo mudanças repentinas de opinião (o que mesmo os políticos mais experientes continuam fazendo, porém de forma tão mais natural e corriqueira que não chamam atenção nisso). Eduardo Jorge e Luciana Genro são exemplos de candidatos que mantém sua personalidade e conseguem manter o bom senso mesmo assim, e tem muito menos atenção do que mereciam. Enquanto isso, do outro lado, temos eleitores apontando o dedo pras contradições alheias sem observar as próprias. De que adianta o direito de votar, se a escolha se baseia nos que tem mais chances de ganhar? Nada me faz menos sentido do que uma pessoa me dizer que se eu votar em alguém com pouca chance de ser eleito estarei perdendo meu voto. Pra mim, uma pessoa perde o voto quando deixa de seguir sua própria opinião pra ir na onda das pesquisas, abre mão de seu direito de votar pra entregá-lo na mão de um mero dado informativo. De todos os critérios pra escolher um candidato ou pra diminuir o valor de um mísero voto, seguir o fluxo é o que considero o pior. É continuar repetindo a mesma coisa e esperar um resultado diferente.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

direito pra quem não tem

Ontem comecei a ler um livro de direitos humanos e hoje outro de direito constitucional (uhu! Daí choveu) e relembrei aquelas noções introdutórias de que o homem pra viver em sociedade tem que reprimir os instintos irracionais, criar regras e blábláblá. O homem, sem se submeter a limitações é egoísta, pode ser violento e até cruel. Outro dia também li um texto falando sobre “normose”, o apego que as pessoas têm pelo que é comum, sem se questionar se é o melhor pra elas. Trabalhe feito louco, pague juros, peça seu carro em casamento e use pessoas pra se locomover, enquanto posta frases bonitas do google. Abrace uma árvore e jogue lixo no chão. Eu não digo, não escrevo nem posto metade das abobrinhas que me passam na cabeça porque as pessoas ainda são quadradas demais, escravas do moralismo barato, como se praticassem a caretice que defendem. Eu que sou careta dispenso o rótulo. O que realmente nos humaniza afinal? A informação aumentou e a hipocrisia teve que acompanhar pra que muitos pudessem continuar sendo ignorantes na mesma medida. Prefiro gente boba alegre, meio doida, que sabe que não dá pra ser normal nesse mundo, que perderia a essência se tentasse. Encontro minha humanidade ali: na espontaneidade. Não tem nada mais gostoso que loucura acompanhada. O homem vive em sociedade não só pra sobreviver, mas pra viver melhor, pra sorrir mais, pra gargalhar muito. Nessa altura o ordenamento jurídico é o mero socorro dos infelizes. A amizade é o melhor termômetro pra te avisar quando você passou do ponto, rir é o melhor remédio. O judiciário é a institucionalização da derrota pra quem não conseguiu agregar.

sexta-feira, 28 de março de 2014

start

Hoje à tarde fiquei por um tempo sozinha na sala em que trabalho, onde costumam me acompanhar duas colegas que também são minhas grandes amigas. No silêncio da ausência delas, coloquei meus acústicos pra tocar. Olhei para as pilhas de processos e pensei: como seria minha vida sem isso? Há mais de cinco anos entrei naquela sala pela primeira vez e desde então desconheço outro modo de passar minhas tardes durante a semana, sem ler discussões principalmente sobre dinheiro, ressarcimento, ofensa pessoal e golpes. Parte da crueldade desse mundo que também sabe ser bom. O acaso me levou ao meu atual emprego e eu não sei a razão de ter gostado tanto sem nunca ter me imaginado fazendo isso até o exato dia 4 de janeiro de 2009, talvez por admirar a maioria dos juízes que passam por esse gabinete, por ter aprendido a manusear processos com uma juíza que sempre será exemplo de pessoa pra mim, ou por ter encontrado ali uma rotina que me desafia diariamente, me faz buscar o aprendizado e me deslumbrar com ele, e também a sensação de colocar a cabeça no travesseiro de dever cumprido.

O fórum é uma escola, há uma vida por trás de cada punhado de papel (ou PDF) que espera ser bem e rapidamente tratada e pelo menos metade dos litigantes ficarão insatisfeitos com a decisão judicial. Na maior parte das demandas é muito fácil pro terceiro desinteressado analisar objetivamente os fatos, já nas situações mais complicadas o desgaste mental é considerável. Onde está a beleza disso tudo? O direito é uma tentativa tantas vezes lenta, fraca, inútil, falha, mas também autêntica e persistente de nos fazer mais humanos. Às vezes ridículo, às vezes falso, porque a nossa imperfeição é sua essência e seu motivo. O direito me cansa e me frustra, assim como músicas difíceis de tocar o fazem nos seus primeiros ensaios, e também me contenta, assim como a primeira vez em que consigo tocar uma música nova inteira. O direito, assim como a música, tem um lugar especial na minha vida que se encaixa perfeitamente e a dá mais sentido.


Então eu escolho as palavras e a melodia. A doutrina e as cifras. A gramática e a poesia. A razão e a emoção. Na música e no direito eu por enquanto engatinho. Em ambos eu quero voar. Isso só vai acontecer depois de muitos calos nos dedos, acordes desafinados, livros lidos e provavelmente muitos concursos frustrados. Domingo vai ser o primeiro deles, porque a gente sempre tem que começar de algum lugar. E como na música, a estreia é assim ó: fiasco. O primeiro som é barulho. O primeiro passo é um tombo. Bora? #partiu

domingo, 23 de fevereiro de 2014

now playing

ENTÃO que as minhas primeiras lembranças da infância são de cantar errado as músicas dos Beatles, Bee Gees, Elvis, Zezé Di Camargo, Leonardo... e aquela música infantil da borboletinha, que devo ter cantado mais ou menos umas 100 milhões de vezes. Depois disso dei muitos shows ao som de Spice Girls e então entrei na fase ‘Sandy e Junior’, tempo em que também conheci Djavan e Marisa Monte. Depois veio o rock, o heavy metal, o progressivo... e o John Mayer. A mistura está formada. Eu não sou dessas pessoas que diz que ouve música. Eu canto junto mesmo. Mal. Ardida. Desafinada. Emocionada. E o tempo todo. Quando toca uma música de que eu goste muito eu não consigo continuar o que estou fazendo, isso inclui desde conversar ou executar algum movimento. Não consigo. Não é exagero. Quando eu gosto de verdade de uma música eu gosto de cada som nela... gosto da primeira voz, da segunda, dos backing vocals, gosto do som do violão, da bateria, do piano, do contrabaixo, o da guitarra às vezes me encanta tanto que acompanho o som do instrumento com as mãos e a voz. Gosto de perceber que tem instrumentos que não consigo reconhecer também, e fico curiosa pra saber o que faz aquele som. Graves de tremer me dão arrepios dos bons. Acho que gaita e violão são o casal mais perfeito em matéria instrumental. O romance que eu mais gosto na vida é o Fantasma da Ópera e Erik é meu personagem preferido, é o espetacular anjo da música. Todas as minhas emoções se afloram com a música de um jeito que eu não consigo expressar naturalmente. Uma música sempre vai me aliviar quando eu precisar chorar, quando a nostalgia bater a música vai me levar pra onde eu quiser ir, quando eu sentir raiva vai ser através da música que vou mandá-la embora, a felicidade sempre vai me dar uma vontade imensa de dançar e eu tenho que me controlar pra não dançar o tempo todo na academia, já que o som fica ligado mas as pessoas ficam de olho (isso rende umas risadas). Associo pessoas às bandas que elas gostam. Os primeiros rostos que desenhei foram ao som de Sandy e Junior. Aprendi a dirigir ouvindo System of a Down. Conheci Londres ao som de Red Hot, Madonna e Lulu Santos, viajei de trem a Warwick/UK ouvindo ‘we only get what we give’. Comecei a ouvir Jimi Hendrix e Rita Lee depois de ler um livro que se chama ‘grogue’. Conheci o som de John Mayer na Rádio Uol, na playlist dos grammys, que ele ganhou por ‘daughters’, e prometi pra mim mesma que iria no primeiro show que ele anunciasse no Brasil (check!!!), também prometi graças ao álbum ‘Try’, que aprenderia a tocar guitarra (quase lá). Durante o ensino médio ouvi muito Linkin Park, na faculdade era Kiss, Dream Theater, Florence and The Machine, Skank e Queen, e tive a sorte de ir ao musical dedicado ao Queen, que foi uma noite inesquecível, por isso acho que simplesmente ouvir uma música não é senti-la por inteiro, o ‘ao vivo’ é... surreal. Vasculhar novos artistas é hobby e o cinema é um grande aliado, assim como os programas de calouros. Mudei o gênero da playlist e a cor do cabelo sem receio durante a vida universitária, como quem procura o próprio tom pra montar um arranjo. Essa busca é gostosa e eterna, mas o caminho tá bem mais claro e mais manso. A minha guitarra depois de muitos anos guardada agora vai esperar só mais um pouco, já que o violão veio primeiro, veio em boa hora e veio pra ficar. O pouco que eu aprendi a tocar até agora é já suficiente pra me deslumbrar. Nessa vida de playlists eu sempre tive o cuidado de não associar meus paqueras à música (prioridades?), ou fazer isso o mínimo possível e jamais com músicas do John Mayer, pra evitar o caso de que dando errado acabe virando trilha sonora de fossa. Óbvio que não adianta nada. É ridículo e impraticável. Porque no meio do caminho sempre existe aquele ponto em que Murphy te sonda atrás da moita depois de ter colocado a jaca ali no seu caminho, pra você enfiar o pé com toda exatidão. E largar de ser besta, porque até a jacada merece um repertório.

Um que seja especial! ;)

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Panis et circenses, parte 43069395749856309465.

Enquanto você reclama do alto do seu sofá a respeito da vergonha que é isso que você chama de bandidagem, enquanto você não lembra em quem e por que votou, enquanto você não sabe o que cobrar dos seus eleitos e quais suas atribuições, enquanto você repete como um papagaio o que um desinformado sensacionalista tem a coragem de declarar na TV, ao mesmo tempo em que molha a mão de guarda, fura fila, pratica a troca de favor, mas não sabe o que falta pra tirar o seu país da M... milhares de pessoas se espremem dentro de um ônibus, tentando se equilibrar entre um empurrão e outro e chegar bem em casa pra família. Outros andam a pé por aí desprotegidos, sujeitos à própria sorte (ou azar) e uma segurança pública inexistente. Mães e filhas são espancadas dentro de casa. Crianças são vítimas de violência sexual. Mas você tá ocupado assistindo aos lobos engravatados apontarem seus dedos culpados pros cordeiros esfarrapados que já nasceram marginais e não tem o direito de serem ouvidos, pelo contrário, tem o dever de serem engaiolados tão logo quanto possível. Do alto da sua ignorância quem precisa de direitos humanos é você trabalhador ‘honesto’ que tira seu traseiro da cama, coloca no carro, na cadeira do trabalho, no sofá da alienação e vice-versa. Não, criatura! Na periferia tem gente tentando ser gente e não conseguindo, tem gente tentando dormir com barulho de tiro, tem mãe mentindo pro filho parar de chorar, tem gente contando moeda pra encher uma sacola de mercado e perdendo a compra, a esperança e a vida no meio do caminho, tem gente desaparecendo em ponto de ônibus, tem zé ninguém indo preso só pra satisfazer o cretino que esquece que o pobre também tem direitos! Tem pai de família com a dívida com a justiça vencida e pagando dobrado porque ninguém se importa. Por que será que a televisão não mostra a violência rica, a do colarinho branco, a que amanhece de óculos escuros e banca tua cegueira? Enquanto tem gente pagando pra se esconder, tem gente que já desistiu de tentar ser visto, já se acostumou com a indignidade. Direitos humanos é pra quem precisa.

"Mas as pessoas da sala de jantar são ocupadas em nascer... e morrer!"

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

carpe diem

Contra todo não desse mundo existe um sim ambulante. Alguém que esperou, que acreditou, que se decepcionou, que superou e riu. Não é a mesma pessoa que teve o não e não se conformou... é a pessoa que acreditou na mentira do sim enquanto foi possível e aceitou o não quando se revelou, não sem lamentar, mas com a certeza de que foi fiel ao que sentiu e a quem sentiu, e que dali por diante seria fiel a si mesma, não sem dificuldade, não sem hesitar, não sem fraquejar, não sem sofrer. Não sem ceder à primeira vontade de começar tudo de novo obstinadamente. Porque é assim. Porque o mundo é dos que tentam, é dos que são desistidos sem desistir, é dos que esquecem e repetem, é dos que desaprendem a desanimar. É dos que aceitam o risco, perdem o sono, se viram do avesso, plantam, chovem e adubam mesmo no solo infértil e sem reclamar, porque a vida nasce do esforço. Gente assim que faz das tripas coração, que tem medo e mais coragem ainda, que quebra a cara tentando fazer o certo e vai continuar quebrando, e que floresce na menor oportunidade, se ilumina diante do desafio, sabe que o fracasso nunca é eterno, que tem as asas cortadas e as reconstrói cada vez mais rápido, sabe querer e sabe o que quer, que tira proveito até do tombo. Gente que persegue a surpresa boa até encontrar e pra isso faz o mundo acontecer. Estão sempre em movimento. Gente assim com quem eu quero seguir. Quero aprender. Quero ser quando eu crescer.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Diga não

N-ã-o. Você tem dificuldade em dizer isso? É fácil, só 3 letras, rapidinho e não te custa nada. Tem medo de chatear alguém? Então seja maior que o seu medo. Decepcionar e ser decepcionado faz parte do dia a dia e todo mundo tem que aprender a viver com isso. Não se engane achando que iludindo outra pessoa estará ajudando. Pelo contrário, estará criando uma expectativa sabendo que não a satisfará. Uma expectativa que talvez não fosse criada por outro modo. Isso é bastante errado. E não pense que evitar o não pode dar certo, porque o que não é sincero simplesmente não se sustenta. Não pense estar tentando. Não pense não estar mentindo! Pra si mesmo e pros outros, que passam a ser teus sombras inconvenientes contando com você em vão, só porque te acreditaram. Muito mais fácil levar um não e seguir em frente do que achar que tá tudo bem e não estar nem bem, muito menos “tudo”. É muito mais difícil perdoar um não que teve de ser descoberto sozinho. Deixe que outra pessoa diga o sim no seu lugar. Mas não faça questão de preservar um assento que deixará vazio (ou mais ou menos ocupado – poupe-nos disso). Esse direito não te pertence, essa obrigação jamais existiu. E se você acha que no mundo existe alguém digno de ser esperado até o fim da noite, até o fim da paciência, até o fim da picada, repita comigo e aprenda de uma vez por todas: NÃO!

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Pelo razoável

“Aristóteles definiu o homem como um ser racional. O homem não é racional, e é bom que não seja. O homem é 99% irracional, e é bom que seja assim porque, através da irracionalidade, tudo o que é belo e amável existe. Através da razão, matemática; através da desrazão, poesia. Através da razão, ciência; através da desrazão, religião. Através da razão, mercado, dinheiro, rúpias, dólares; através da desrazão, amor, canção, dança. Não, é bom que o homem não seja racional. O homem é irracional.” (Osho)

Ajustando isso ao dia de hoje: através da razão, ciências exatas; através da desrazão, ciências humanas. Através da razão, interpretação; através da desrazão, compreensão. Através da razão, inclusão; através da desrazão, solidariedade. Através da razão, conhecimento; através da desrazão, talento. Através da razão, leis; através da desrazão, princípios. Através da razão, direito; através da desrazão: justiça.

Porque dignidade e liberdade merecem mais que fórmulas prontas, precisam de atenção. É muita vida pra pouco código, muita história pra poucas páginas, muita versão pra uma verdade só.

A diferença é, e sempre será: saber colocar o coração junto.


sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

(in)felicidade

Depois que você toma uma dose de coragem e outra de atitude, tudo fica mais claro. Preocupar-se com a opinião dos outros é normal, tentar corresponder às expectativas alheias é ser infeliz. É matemático: você VAI ser infeliz se deixar que façam escolhas por você. Se escolherem uma roupa pra você comprar, uma matéria pra estudar, uma rotina, um relacionamento. É impossível fazer a cabeça de outra pessoa. O máximo que se consegue é uma triste representação. Muita gente vem dar conselho preocupado com o que é melhor pra você sem te perguntar como você se sente ou o que você quer. Vão querer sempre que você esteja no topo, porque se você quiser menos que isso poderá estar se desvalorizando. Eu te pergunto: qual o problema das pessoas?

Agora, se você vai lá e faz tudo ao contrário pra tentar provar alguma coisa, toma aqui a sua carapuça também.

Qual o mistério em cada um viver a sua própria vida? Em se dedicar às próprias vontades? Algumas pessoas desaprendem a ter vontades próprias. Eu observo a dificuldade que existe em aceitar a opinião diferente. Feliz é o esquisito que não tenta se encaixar nessa imensidão de mesmice. E se eu não quiser chocolate na páscoa? Preciso ouvir uma palestra? Quem faz sacrifícios na vida sabe muito bem porque os faz. Se eu não quiser sair numa noite de sábado porque quero ler um livro, não vou dar lição de moral em ninguém pra que faça igual. Porque a recíproca não é verdadeira?

Por isso ser feliz acaba sendo complicado. Porque querem apontar o dedo pra sua comida, pro seu repertório, pro seu lazer, pro seu futuro. Não se deixe levar. Tome seu café amargo ou melado, ouça música ruim, desça do salto. Seja você, seja feliz. Deixe o que seja: ser.

E se me perguntarem porque dei aquela volta de disco voador em júpiter eu vou sorrir e dizer: porque eu quis!


Porque a simplicidade é rara.

domingo, 15 de dezembro de 2013

no pé da árvore

Faltam 10 dias para o natal, mais alguns para o próximo ano. 2013 significou o ano de voltar pra casa, de ter tempo e aprender o que fazer com ele depois do fim da faculdade. Depois de uns 6 meses entediada e chata, comecei a cumprir as metas de voltar pra academia e aprender violão. Também passei a ter muito mais tempo em casa com minha família, a me envolver demais com os atritos diários e me preocupar além do necessário. Enfim, um ano não-universitário cheio de aprendizado. E de menos efusividade. Essa foi a melhor parte de todas, de não se deixar levar por declarações amontoadas. Sabe? De você se deparar com um mural de corações e entender que tem que deixar o seu lá também. Eu não sou disso. Eu não faço questão de sair na foto. Eu não tenho data certa, não tem programação pro que eu sinto. Não vou deixar você na mão quando precisar e um belo dia vou ter vontade de dizer que você é especial. Mas também pode ser que só aconteça isso num dia feio qualquer. Com o tempo, vou aprender o que é importante pra você e vou cuidar pra que aquilo esteja à sua volta sempre. Meu coração é tímido. Ele gosta de chegar em casa tarde e encontrar a luz da escada acesa pela minha mãe, ou abrir a freezer e ver o que meu pai me trouxe. Meu coração gosta de ser surpreendido pelo convite da minha irmã para ir ao rock in rio ver o meu ídolo, ou a paciente espera do meu irmão ao me levar na livraria. Meu coração é de gestos. Também é de passar noite em claro, de chorar no escuro... de respirar melhor diante de um sorriso. Meu coração se esconde em volta de quem ele ama e sente junto. Então não espere, porque eu já estou. Meu coração é dado de presente todo dia, na sombra do pé da sua árvore  cheia de pedidos, dia 25/12 é só mais um dia... o feliz dia em que Jesus veio ao mundo. 

domingo, 24 de novembro de 2013

menos

Aí que num domingo nublado lembrei: e meu blog? Resolvi dar uma olhada e acabei relendo tudo. Sistemática, fiz uma limpa. Tirei conclusões. Eu no meu próprio divã. Nossa, que mania feia de analisar os outros, hein. Vesti todas as carapuças que lancei. Competi comigo mesma e fui desclassificada! Será que continuo petulante como fui tantas vezes nas palavras? Eu sei que sim. Só amando mesmo pra aguentar. Passada aquela inspiração toda resta a letra fria e áspera, ácida. Preciso escrever palavras doces pra voltar aqui e adoçar um dia monótono. Hoje mesmo estava pensando em como as palavras podem ser pesadas demais e o silêncio é frequentemente mais sábio. Tem que ter muito dom pra dominar o que dizemos e usar isso para o bem... como também não há nada a que a gente não se acostume, inclusive continuar errando e tolerar. Lembrei de uma música do Pouca Vogal: “seja firme, seja leve, seja bravo, seja breve”. Hoje vou de: leve.

[mas amanhã pode ser que eu volte aqui chutando o balde... porque o tempo não para!]

domingo, 16 de junho de 2013

Descendo do muro

É muito difícil ser “apartidário”, a própria decisão de não tomar partido muitas vezes acaba sendo direcionada e institucionalizada. Tomamos partidos todos os dias. Isso se aplica muito à política atual, em que há partidos os mais diversos possíveis. Eu cresci em meio à política e tentando gostar “dela”. Até hoje não consegui. No entanto posso dizer que conheço políticos admiráveis (e um ex-político que é exemplo pra mim). Posso dizer também que conheci eleitores admiráveis e outros tantos corruptos, e são esses últimos os mais adeptos do discurso “demagogo”, por isso eu diria que sim, temos representantes eleitos, no sentido literal da palavra. Gente que nos representa como um todo, que reflete a nação que somos, ou que FOMOS, em maioria.

Na última semana eu pude ver que a insatisfação com o serviço público é geral, não tinha como ser diferente, acontece que agora atingimos o limite. Eu penso em quanta gente acorda de manhã em suas casas populares financiadas pelo governo e com vários problemas estruturais por irregularidades na construção, saem de casa duas, às vezes três horas adiantados e fazem filas em pontos de ônibus, disputam lugares (e não assentos) em ônibus lotados, vão ao mercado e pra encher UMA sacola gastam por volta de R$ 50 – o que é desproporcional em relação ao salário mínimo – não conseguem ter o mínimo de confiança em serviço de telefonia – que está beirando a inviabilidade; precisam de consulta com um médico especialista pelo SUS e têm que esperar 4 meses, isso sem falar no resto.

Mas na hora da propaganda tudo funciona. Na hora da campanha, o país está em pleno desenvolvimento. Em regra, acreditamos, talvez porque seja da nossa natureza. Mas a certa altura não tem mais como se enganar. Não são apenas R$ 0,20 centavos a mais, é que já não há espaço pra tanto descaso. E a história prova que a melhor forma de ser ouvido não é batendo na porta, ela não vai abrir, um portão vai te deter muito antes. Eu li coisas muito mais conclusivas na internet sobre as manifestações (e coisas muito absurdas também) mas tenho certeza que a imprensa só divulga o que é do próprio interesse. A Polícia, por sua vez, está executando ordens.

Dizem que a mídia e o Ministério Público são o quarto poder. A voz do povo é o quinto, e apesar da pouca consistência das afirmações de vandalismo e de que seriam (aquele pessoal todo) rebeldes sem causa eu pude ler vários relatos de gente séria envolvida. Gente que não tem a mente limitada a ponto de achar que assistir a um jogo da copa ou ser de outra classe social interfere no direito de se manifestar. Não é um pedido, e não é por esmola. Ao que me parece esse povo está disposto a enfrentar a repressão e a perseguição até ser ouvido. Torço pelo sucesso da Copa das Confederações e por qualquer evento que o Brasil sediar. Mas acredito que o protesto não precisa de ocasião, precisa de fundamento e isso tem de sobra.

Esses dias atrás um colega afirmou: “protesto na Europa é sinal de engajamento político.” No Brasil que eu moro também é. Mas acho que eu ia querer conhecer esse país sem problemas que algumas pessoas conformadas pensam morar, ou em que mundo sem protestos acham que vivem. Protestar é um exercício de direito, mais ainda com tanta falta de respeito vinda do governo. O fato de estar eleito não quer dizer que todas as ações e omissões praticadas sejam chanceladas pelo povo. Muito pelo contrário, a manifestação popular é a mais soberana das autoridades, não estamos condicionados a aceitar tudo em decorrência do voto, mas temos o dever de fiscalizar todo o mandato (até porque em época de eleição todo mundo é santo).

Com certeza a violência é um método inaceitável, por isso deve ser reprimida sempre, porém, de forma razoável e proporcional, jamais presumida e provocada, como está acontecendo. Forçar o silêncio em um Estado que se diz democrático é o fim da picada.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Só acho


O problema de ter uma autoridade judiciária “causando” com frequência nos noticiários é ir perdendo a confiança aos poucos. A política do pão e circo não seria um método estranho ao direito? Achava que pertencesse a uns detentores ruins de cargos eletivos. Mas posso estar enganada.

Sempre achei que barulho demais significasse comprometimento de menos. O ilusório privilégio da certeza pertence aos idiotas e os sábios estão em silêncio investigando suas crescentes dúvidas. Assim caminha a humanidade.

O duro é lidar com um deputado que se diz defensor dos direitos humanos e se mostra uma pessoa eminentemente desumana. Gente, e dizem que ISSO é democracia. Democracia é a palavra mais irônica que eu já vi na minha vida.

Na Grécia “criaram” a democracia mas na realidade poucas pessoas eram consideradas cidadãs. Naquela época mulher nem voz tinha. Como as pessoas tem coragem de chamar uma coisa qualquer de democracia? Quem sabe um dia a gente consiga concretizá-la, mas, enquanto isso não acontece, repete-se essa palavra de forma ridícula.

Democracia é o povo no poder, um povo que poucas vezes sabe o que está fazendo, um povo crédulo demais que se perde em suas próprias crenças, que acha que democracia é poder dizer o que pensa, esquecendo que a democracia não é uma permissão para discriminar o próximo, opinião não é sinônimo de desrespeito. Liberdade tem que ser pra todo mundo. Limites também.

Em passos de formiga e as vezes sem vontade, temos caminhado. Se não buscamos a evolução, ela nos carrega.

Mas longe de mim aceitar algumas coisas. Gente que já demostrou ter uma implicância latente com uma classe e se recusa a discutir civilizadamente um assunto. Esclarecer aos interessados quais são seus reais argumentos.

Quem grita raramente tem razão, pois quem a tem não precisa erguer a voz. Quem tem autoridade não precisa subjugar quem está à volta. Mais uma vez, somos todos humanos na mesma medida.

Então os TRFs são inconstitucionais? Faz sentido que as ADCTs não possam ser usadas para situações criadas após a Constituição de 1988, isto é, após a transitoriedade para a qual tais regras foram elaboradas. Ok. Qual é o remédio pra isso? Uma ADI ou um barraco?

O prazo para instalação dos TRFs é desarrazoadamente curto? Qual o remédio pra isso? Um requerimento de dilação de prazo ou um barraco?

Existem formas mais eficientes de ampliar o funcionamento da Justiça Federal do que criando novos Tribunais? Qual o remédio pra isso? Uma nova proposta de emenda ou um barraco?

Só acho que barraco não resolve nada. 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

o que realmente importa?

Encerrando as leituras do feriado, vi essa postagem com fotos de crianças ao redor do mundo com seus pertences preferidos e essa outra semelhante, porém com refugiados.

As fotos me fizeram lembrar desse trecho do livro "O mundo de Sofia":

"Qual é a coisa mais importante da vida? Se fazemos esta pergunta a uma pessoa de um país assolado pela fome, a resposta será: a comida. Se fazemos a mesma pergunta a a quem está morrendo de frio, então a resposta será: o calor. E quando perguntarmos a quem se sente sozinho e isolado, então a resposta certamente será: a companhia de outras pessoas.
Mas, uma vez satisfeitas todas essas necessidades, será que ainda resta alguma coisa de que todo mundo precise? Os filósofos acham que sim. Eles acham que o ser humano não vive apenas de pão. É claro que todo mundo precisa comer. E precisa também de amor e de cuidado. Mas ainda há uma coisa de que todos nós precisamos. Nós temos a necessidade de descobrir quem somos e porque vivemos."

para pensar: livre convencimento do juiz

Encontrei esse artigo aqui e esse outro falando sobre os fundamentos da decisão judicial, cada um sob um enfoque, e acho que não concordei integralmente com a crítica de nenhum, mas de qualquer forma fica registrado pra uma futura pesquisa sobre o assunto.

"A mídia se 'bordelizou'. Às vezes fico sabendo de algo sobre um cliente pelos jornais. Depois, com muito esforço, é que vou conseguir ver o processo. Isso é um problema psicológico de empuxão da sociedade contra o investigado, no sentido de tornar a defesa dele cada vez mais difícil. O investigado é condenado de antemão. (...) a mídia tem postulado — e obtido — que o povo se volte contra o investigado e o advogado dele. No Século XVIII a advocacia era uma coisa tão honrada que, quando o advogado aceitava uma causa, ele tinha uma bolsinha presa nas ilhargas. Ele se virava de costas e o cliente punha na bolsinha os honorários que entendia adequado. Daí a expressão “honorário”, que significa “em honra”. Hoje, querem saber quem pagou o advogado, quanto pagou, como pagou e por intermédio de quem o advogado foi pago. Enfraquecendo-se a defesa, se enfraquece o defendido, e alguns advogados se amedrontam e deixam de fazer o que é necessário."

"É preciso, pois, um 'choque de realidade' no estudo do Direito Constitucional. Urge que sejamos menos abstratos e voltemo-nos mais para o estudo dos fatos e das consequências das decisões judiciais. Para se compreender realmente como os juízes decidem os casos parece agora ser necessário inverter o caminho percorrido por Dworkin, buscando analisar não como os juízes decidem, a partir de uma perspectiva interna, mas o que leva os juízes a decidirem da forma como decidem, a partir de uma perspectiva externa (de um observador das relações causais da prática jurídica). É necessário se compreender como o Poder Judiciário exerce o seu poder político, o que demanda respostas a questionamentos difíceis, como: Quem são os beneficiados e os prejudicados nos processos judiciais? Como determinados temas ingressam na pauta do Supremo Tribunal Federal? Por que determinados casos demoram a ser julgados, enquanto outros são rapidamente apreciados? Quais são os atores políticos que influenciam na escolha de tais temas? Quais fatores levam a uma mudança de jurisprudência? Qual a influência da mídia? Qual o impacto dos movimentos sociais na formação da opinião dos magistrados? Em suma, o que torna uma questão constitucional relevante para os membros da Corte e quais os incentivos que os levam a decidir de um ou de outro modo? Estas questões — que se aproximam mais do âmbito de investigação da ciência política e da história do que da filosofia — têm recebido pouca ou quase nenhuma atenção dos constitucionalistas."

domingo, 31 de março de 2013

para pensar: condenações

Esses dias atrás estava navegando pela internet quando me deparei com essa reportagem. Em inglês, usei o tradutor do google para ler, acredito se tratar de uma das muitas leituras obrigatórias aos operadores de direito, cujo final transcrevo:

"Para alguns juízes sentados no alto que nunca estiveram um dia na cela, talvez vinte e cinco anos aqui não seja tão cruel e incomum. Para pessoas que têm um apetite insaciável por vingança contra os presos que cometeram crimes terríveis, talvez a eles mesmos não importe o quão cruel ou incomum a minha situação é ou não é. Para as pessoas que não podem deixar de odiar e não sabem perdoar, nenhuma quantidade de remorso importaria, nenhum nível de contrição seria o bastante, apenas a retribuição interminável seria certa a seus olhos. Como o Juiz Milroy, apenas uma eternidade no inferno os satisfaria. Dado ainda que, em retribuição, porém, os inimigos implacáveis ​​não ficariam satisfeitos que o inferno fosse quente o suficiente; eles querem mais calor. Felizmente essas pessoas são poucas, pois na mente de muitas, em um ponto, o suficiente é o suficiente.

Não importa o que o mundo iria pensar sobre as coisas que não podem imaginar nem mesmo seus piores pesadelos, eu sei que 25 anos em confinamento solitário é totalmente e certamente cruel, ainda mais do que a morte ou por uma cadeira elétrica, câmara de gás, injeção letal, bala na cabeça, ou até mesmo imolação poderia ser. A soma do sofrimento causado por qualquer dessas mortes rápidas seria uma coisa pequena próximo à soma do sofrimento que este quarto de século na SHU me trouxe para suportar. Confinamento solitário para o período de tempo que eu tenho sofrido, mesmo para além das condições desumanas a que eu muitas vezes fui submetido, é de tortura de uma espécie terrível, e quem não pensa assim, certamente não sabe o que pensa.

Tenho cumprido uma pena pior que a morte."

Ainda neste mesmo sentido o artigo do Walcyr Carrasco em que o autor afirma:

"Historicamente, o cristianismo implica abandono do 'olho por olho, dente por dente', do Antigo Testamento e propõe uma sociedade mais tolerante. Mas os novos fundamentalistas querem punir, proibir. Políticos não evangélicos - incluindo os que estão em cargos de poder - obedecem, para manter coalizões. O filme Os deuses malditos, de Luchino Visconti (1969), mostra a ascensão do nazismo por meio da manipulação de uma família. Mostra os pequenos e grandes fatos que conduziram a Alemanha naquela direção. Agora, sinto um cheiro ruim de autoritarismo no ar. Há um recuo com relação a conquistas que implicavam na convivência entre os diferentes - a base da democracia, afinal. Quando uma lei pela moral e pelos bons costumes é sancionada, a agressão foi à sociedade. A deputada Myrian Rios é a ponta de um iceberg. Eu me pergunto: o que leva uma pessoa a achar que tem o direito de dizer como outra deve pensar e viver?"

Embora o primeiro texto não se refira ao sistema prisional brasileiro, ilustra a visão superficial que temos sobre ele. Às vezes penso que estamos na era dos condenados. Não sei se estamos obrigados a certo autoritarismo camuflado, ou se realmente aceitamos isso tudo por preguiça. Ainda acreditamos que não seja nossa culpa.

Como cidadãos contribuintes somos condenados à abusividade do Estado, ao dependermos do serviço público somos condenados à sua ineficiência. Ao dependermos do serviço privado somos condenados a ambas: abusividade das cláusulas, tarifas, atendimento péssimo. Democracia tem servido apenas ao lado mais forte e somos condenados a conviver com o pior de dois mundos, e não vejo nenhuma reação contrária expressiva. De longe parece que tá tudo lindo. E gente esquecida na cadeia, gente esquecida em fila de hospital. Gente que esquece de reagir. Gente esquecida. Condenada ao esquecimento.

domingo, 24 de março de 2013

fraquezas


A minha vontade de me expressar é tanta que eu aprenderia a tocar violão, violino, guitarra, gaita, violoncelo, faria curso de artes cênicas, de arte circense, de artes plásticas e do que mais o tempo me permitisse, se eu tivesse oportunidade também. Na época de escola eu era presença certa nos corais e teatrinhos, eu queria ser artista quando crescesse. Esse foi o plano durante muito tempo.

Minha infância se dividiu entre bonecas, folhas de papel e lápis de cor. Pintei a parede do meu quarto, pintei os quadros que tenho nas paredes de casa, já perdi a conta de quantas pessoas desenhei, pintei o muro de uma escola, já quis fazer curso de tatuagem, minhas apostilas do ensino médio pareciam cadernos de desenho... a última coisa que eu queria na vida era escolher uma profissão em que a aparência fosse essencial. Eu queria a liberdade de pintar o cabelo de verde e pentear pra cima, já que a gente se veste conforme se sente, e existem muitas cores lindas pra eu querer usar meu cabelo sempre da mesma cor.

Devo ter hiperatividade mental. Já falei muita abobrinha querendo brincar, descontrair, disfarçar alguma coisa. Já falei besteira por tirar conclusões precipitadas e deixar a irritação falar por mim. Já falei demais por achar que a sinceridade não precisa de limitações. Já me arrependi de ter silenciado muitas vezes. Acho sou que sou simplesmente viciada em falar, cantar, dançar, desenhar... meu estado de espírito nunca coube em só mim.

Aí coloquei na cabeça que essas minhas modalidades de tagarelice eram sinal de imaturidade e que eu tinha que aprender a lidar com isso. Mas se eu fosse uma pessoa madura de verdade talvez eu soubesse qual o limite do excesso e qual o mínimo pra não perder a identidade. Errante que sou eu ora me excedo e ora me anulo. Em outras palavras, falo de tudo que há de mais desimportante e fico quieta diante do que mais importa. Falo quando tenho que ouvir, pontos de interrogação me deixam confusa.

Mas uma hora a gente aceita o desafio de ser normal, mesmo que isso signifique fazer de conta que a vida não é tão louca. Que a racionalidade não é tão rara. Que o mundo não é tão cruel. Aceitamos as pequenas vitórias que fazem todo nosso esforço valer a pena. Descobrimos que somos iguais e diferentes e passamos a vida tentando distinguir nossas semelhanças e diferenças, tentando nos acostumar com as regras de convivência que criamos, tentando padronizar o que temos de mais particular. Adquirimos a paciência de um garimpeiro porque sabemos que o preço do achado recompensará a procura, o cansaço e os dedos sujos de terra.

Algumas coisas eu aprendi. Não precisamos de todos os meios do mundo pra nos expressar. Não preciso de todas as cores do mundo pra me identificar. Quem procura acha, quem se procura também se encontra, numa música, num lugar, num outro coração. Quem se encontra, encontra o sossego. Podemos sempre esperar passar a raiva antes de magoar alguém com as nossas “verdades”. Devo ser sincera com os outros como sou comigo mesma: compreendendo.

A maturidade não é uma mudança de atitude, é uma evolução, acontece naturalmente. Não é porque de repente fiquei com medo de falhar que automaticamente passei a ser eficiente. Apenas deixei de ser eu mesma. A perfeição não existe, tentar se aproximar disso é se afastar de si mesmo, se enganar e sufocar por dentro. É artificial. Eu quero aprender errando, com os meus próprios erros, minhas experiências. Quem diz que aprende com o erro do outro não entende, não sente, não se conhece por inteiro, não sabe do que fala e não vive o que diz. A virtude vem de dentro. Riqueza de espírito é ter consciência da própria fragilidade e assumi-la. É ter a deliciosa noção de quão precioso é o aprendizado. E aprender, aprender, aprender, aprender.

sábado, 16 de março de 2013

Além da espada, há uma balança


Depois de 5 anos cursando direito, 4 deles trabalhando no Fórum, um dos meus maiores aprendizados foi de que a justiça não tem uma fórmula padrão, tal como apenas encontrar um culpado e condená-lo. Se fosse assim, consideraríamos a terra um planeta-penitenciário lotado de bilhões de seres errantes. Ser justo é uma postura a ser buscada todo o tempo, através de interpretação e bom senso, porque existem dispositivos legais, jurisprudência e justificativas pra quase todos os lados. Pra trabalhar e vivenciar o direito em meio a toda opinião, revolta e ignorância de grande parte da sociedade, apenas se pode contar com a consciência limpa. Sem isso, nada valeria a pena. Vivemos em um mundo de aparências, corrupção e desconfiança. O mais irônico é que as pessoas que mais repudiam o governo, as autoridades e o comportamento alheio, também são as que menos demonstram questionar-se a si mesmas, sobre as próprias convicções e atitudes sem fundamento, muitas vezes ignorantes, egoístas, de simplesmente desacreditar no próximo porque, vai entender, “perderam a fé na humanidade”, curioso que essa mentalidade normalmente seja sinônimo de desconhecimento. Isso é inaceitável pra mim. Enquanto houver motivação pra trabalhar da melhor forma que eu for capaz, eu vou acreditar que também existe muita gente boa por aí fazendo o mesmo, e, antes que eu me desencante, eu vou procurar saber. Eu vou, pelo menos, ao ouvir uma acusação, procurar saber sobre sua procedência, sobre como eu poderia ser útil pra resolver, antes de colocar a culpa no outro. Eu quero poder oferecer às pessoas a chance que espero que elas me deem. Eu não vou aceitar prontamente tanta negatividade generalizada. Há muito a ser feito, e eu prefiro ocupar a mente com coisas boas, do que sujeitar a mente vazia à eterna rebeldia sem causa e à ilusão de que somos melhores que alguém. Quero jamais perder a sensibilidade, a humanidade, a ideia de que somos todos iguais, na alegria, na tristeza, na hipocrisia, na impulsividade e nos atos falhos, nas diferenças, nas incompreensões, nos sofrimentos e evoluções. A justiça terrena pode ser lenta, sem dúvidas é singela... mas um dia prestaremos conta, lado a lado, à mesma autoridade que nos deu o dom da vida. Somos todos imperfeitos, o poder do julgamento é o mais delicado que existe - embora a gente insista em querer exercê-lo - mas, a verdade é que, eventualmente, ainda seremos todos subjugados por ele. O que eu sempre tenho vontade de dizer é: coloque-se, a si próprio, no banco dos réus de vez em quando.